Litoral

Famílias relatam importância da doação de órgãos em meio a queda na pandemia: ‘Vários recomeços’


Enfermeira que doou os órgãos da mãe e um marceneiro que ganhou nova chance de vida após um transplante falaram ao g1 da importância da conscientização sobre o tema. Mariana falou sobre a doação de órgãos da mãe, que morava em Itanhaém, SP
Arquivo Pessoal
“Para mim, era o fim da vida dela, mas hoje eu vejo que ela deu vários recomeços”. A reflexão é da enfermeira Mariana Helena de Lima Sant Anna, de 31 anos, sobre a doação de órgãos da mãe. Natural de Itanhaém, no litoral de São Paulo, Adriana Oliveira Lima morreu aos 48 anos, após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico. Apesar do momento de dor, a profissional da saúde passou a conscientizar sobre a importância das doações, que diminuíram na pandemia.
De acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), o número de transplantes no Estado de São Paulo caiu 26% entre o início da pandemia, março de 2020, e maio deste ano. Cerca de 4.952 procedimentos deveriam ter sido realizados, mas apenas 3.851 foram feitos, praticamente 1.100 cirurgias a menos.
Nesse período, diversos fatores dificultaram o andamento da fila de transplantes, como o fato de pacientes que morreram de Covid-19 não poderem doar órgãos. Há, ainda, a situação da ocupação dos hospitais por esses pacientes com a doença. Porém, com o avanço da vacina, é possível que a doação também tenha uma retomada.
O g1 ouviu duas pessoas que passaram por recomeços devido à doação, e hoje utilizam a experiência para conscientizar sobre o tema.
Mariana relata que a mãe sofreu o AVC hemorrágico enquanto tomava o café da tarde. O sangramento foi muito severo e não houve condições de intervenção cirúrgica para melhorar o quadro. Na época, ela cursava o 5º ano da faculdade de enfermagem, e conhecer as sequelas e os agravamentos da doença contribuiu para aumentar a preocupação dela, que acompanhava de perto a piora da mãe.
Mariana falou sobre a doação de órgãos da mãe, que morava em Itanhaém, SP
Arquivo Pessoal
“Fiquei dividida entre o sentimento de filha, de querer que minha mãe sobrevivesse a todo custo, e o de profissional. Já sabia que não tinha mais nada a ser feito, somente aguardar para saber como ela reagiria, ou um milagre. Mas, às vezes, o milagre não é do jeito que imaginamos”, relembra.
Adriana passou mal em uma sexta-feira, e na segunda foi constatada a morte cerebral. Mariana diz que foi pouco tempo para aceitar a situação. “Eu não tomei a decisão [da doação] como profissional de saúde, mas como uma filha que deu continuidade à missão da mãe. Ela tinha 48 anos, era cheia de vida”, conta. Ela era professora e nunca teve qualquer doença ou comorbidade, segundo a filha.
Adriana doou rins, fígado, pulmão, córneas e pele. “Ajudou muitas pessoas a terem suas vidas de volta. Hoje, após três anos, eu consigo enxergar que, até na sua partida, ela me ensinou e me ajudou a ser a profissional que sou hoje”, descreve. Como uma pessoa que já passou pela situação de optar pela doação de órgãos, e como profissional da saúde, Mariana avalia que há alguns pontos que atrapalham no processo de doação.
Segundo a enfermeira, a maior barreira para uma família tomar a decisão de doar os órgãos de um parente é o tempo, já que é preciso lidar com o luto, pensar na burocracia do sepultamento e, ainda, avaliar sobre a doação. Ela ainda diz que a abordagem e a forma de os profissionais se comunicarem durante esse processo pode ser determinante “Se a equipe não tiver uma boa abordagem, a família desiste”, diz.
“Hoje, eu enxergo a doação como um ato de coragem e de amor. Meu coração se alegra, também. Não era o milagre que eu orei, pela vida dela, mas foi o milagre e a resposta à oração de alguém”, finaliza.
‘Recomeço’
Sângelo falou sobre o recomeço após receber doação de rim em Guarujá, SP
Arquivo Pessoal
O marceneiro Sângelo Raimundo da Silva, de 41 anos, conta que a ligação informando que receberia um rim foi o início do recomeço da vida dele. Morador de Guarujá, também no litoral de São Paulo, ele convivia com problemas no órgão desde os 10 anos. Ainda criança, precisou retirar o rim esquerdo. Anos depois, descobriu que sofria com a síndrome renal policística, e que, ao longo dos anos, o órgão pararia de funcionar.
Sângelo ficou 15 anos sem enfrentar problemas, mas em 2020 precisou fazer hemodiálise. Ele passou por esse processo por quatro meses. “Fazer hemodiálise é muito difícil”, relembra. Contudo, mesmo em meio à pandemia, em alguns meses ele recebeu a primeira ligação de que havia um órgão disponível.
Essa primeira comunicação ocorreu no dia 23 de junho, entretanto, não foi possível fazer o transplante. “Nesse dia, não deu certo. Fiquei triste, mas me apeguei a Deus. A médica falou que eu seria chamado outra vez. No dia 26, eu estava fazendo hemodiálise quando fui chamado de novo. Fui e deu certo”, relembra.
O marceneiro conseguiu o órgão em uma doação anônima. Após lidar por anos com problemas nos rins e passar por diversas hemodiálises, ele conta que ganhou um recomeço de vida. Desde então, ressalta a importância da doação.
“Esse ato de doar é, com certeza, o recomeço de uma outra vida para quem espera um transplante. Espero que meu relato possa ajudar muitas outras pessoas, incentivando as pessoas a doarem órgãos, vida. Isso, com certeza, é um ato de amar o próximo”, finaliza Sângelo.
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