Litoral

Após casos de Covid, tripulantes em navios de cruzeiro acreditam no retorno da temporada e cobram protocolos mais rígidos


Temporada foi suspensa em todo o Brasil, com previsão de retomada a partir de 21 de janeiro, mas ainda não há definição. Para os profissionais, Anvisa deve tornar procedimentos para embarque mais rígidos. MSC Splendida com Réveillon previsto no RJ retornou às pressas para o Porto de Santos após surto de Covid-19
Vanessa Rodrigues/Jornal A Tribuna
Dois tripulantes que estão a bordo de navios que tiveram confirmações de casos de Covid-10 durante cruzeiros marítimos na costa brasileira conversaram com o g1 nesta segunda-feira (10). Eles afirmam que acreditam na possibilidade do retorno dos cruzeiros após o fim do prazo de suspensão da temporada, mas consideram que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deveria tornar os protocolos sanitários mais rígidos.
Um dos tripulantes da MSC, que preferiu não se identificar, reitera que acredita na possibilidade do retorno das viagens. “Óbvio que eu jamais discordaria da decisão de um órgão tão sério quanto a Anvisa, e acredito muito na importância dela em se preocupar e manter em segurança a saúde pública do nosso país. Pelo cenário que vimos [na temporada] na Europa, acreditamos que, se a Anvisa reajustar os protocolos de segurança, poderemos dar continuidade na temporada brasileira”.
Segundo esse tripulante, mudanças como a diminuição da capacidade de cada navio e exigência de testes de Covid-19 no terminal de embarque seriam importantes. “Nós, da tripulação, nos sentimos seguros em retomar, usamos máscara o tempo inteiro, estamos vacinados e seguimos os protocolos. Vi em jornais alguns passageiros dando entrevistas falando que a contaminação vem dos tripulantes, mas nós não podemos sair do navio em momento algum, somente os passageiros podem descer nos portos de paradas”, diz.
“Acredito que podem ocorrer erros dos dois lados, mas quanto aos protocolos de segurança, a tripulação tem seguido à risca, os supervisores nos cobram o tempo inteiro. Mas, infelizmente, os passageiros não se conscientizam, não usam máscaras. Se a gente pede gentilmente para que usem, são grossos, ignoram, dizem que já estão vacinados e que não há necessidade. Infelizmente, a cultura do negacionismo em nosso país tem falado mais alto do que a importância de cuidar da própria saúde. Nós damos as opções seguras de como aproveitar o cruzeiro e se proteger, mas não podemos pegar na mão de cada pessoa e ensinar a ela como fazer”, lamenta.
Embarcação foi a primeira a chegar ao Porto de Santos, SP, para dar início à temporada de cruzeiros 2021/2022
Arquivo Pessoal/Malta.Drone
Em relação à possibilidade de suspensão definitiva da temporada de cruzeiros, os profissionais dizem que serão impactados. “Sabemos que a vida é mais importante que tudo, mas, ao mesmo tempo, acreditamos que podemos permanecer a bordo em segurança e realizar os cruzeiros. Acreditamos na Anvisa, na sua seriedade, e também que ela possa reajustar os protocolos de segurança, nos permitindo navegar. Para os passageiros, é férias, descanso, mas nos bastidores, por trás de nós, tripulantes, existem sonhos e famílias. Não consigo juntar em mais de um ano de trabalho no Brasil o que junto trabalhando a bordo de navio de cruzeiros em sete meses. O meu país não me permite um salário digno, qualidade de vida, nem sequer segurança, por isso, estamos todos aqui trabalhando e esperançosos que tudo voltará aos trilhos. Estamos trabalhando arduamente por nossos objetivos”, reforça.
Após os casos positivos da doença, os tripulantes são testados com frequência. “Todos os tripulantes que pegaram Covid-19 foram desembarcados no Porto de Santos junto com os passageiros, no dia em que houve o cancelamento. Atualmente, o navio não está atracado no Porto, e sim na costa. Os testes são realizados a todo momento na tripulação. É anunciado que devemos ficar preparados com máscaras, e a equipe médica vem, faz os testes e em poucos minutos já sai o resultado. Caso dê positivo, o tripulante de imediato é removido à área de isolamento”.
De acordo com o profissional, o período de quarentena dentro do navio está sendo tranquilo. “Eles se demonstram bem preocupados com o bem-estar da tripulação, a todo momento se comunicam conosco pelos microfones. É servido o café da manhã, almoço, café da tarde e o jantar. Também deixaram o frigobar dos passageiros abertos para consumo, tendo snacks, cerveja, refrigerantes, suco e água”, relata.
MSC Seaside chegou ao Porto de Santos para o desembarque de passageiros
Luciana Moledas/g1
Falta de acompanhamento
Outro tripulante da MSC ouvido pelo g1 afirma que aproximadamente 1,5 mil tripulantes que estão em quarentena no navio são testados diariamente. “[Estamos] perto da costa de Santos. Basicamente, todos os funcionários estão dentro das cabines de passageiros, recebendo todas as refeições diárias, serviço de lavagem de roupa e internet. Cerca de 70 funcionários testados estão providenciando comida e toda a assistência aos isolados. Quem testou positivo antes da determinação de parar por dez dias foi retirado do navio e encaminhado para cumprir isolamento em um hotel”.
Para esse profissional, a saída de passageiros dos cruzeiros sem acompanhamento da excursão acaba tirando o controle do navio em relação ao uso de máscara. “Fazendo com que o passageiro traga o vírus para dentro do navio. Brasileiro usa pouquíssimo a máscara dentro do navio, e quando usa, é com o nariz para fora. Nos novos protocolos, não podemos descer, ou seja, quem traz o vírus para o navio são os passageiros”.
“Acredito que [a temporada] deve retornar se algumas medidas forem aplicadas, como PCR rápido no dia do embarque e a possibilidade de sair do navio somente com a excursão, como foi na temporada europeia, com sucesso e pouquíssimos casos isolados. Se paralisar, sem sombra de dúvida seremos prejudicados. Existem tripulantes que estavam há dois anos sem embarcar, e subiram agora no navio, há um mês, completamente quebrados financeiramente”, finaliza.
Posicionamentos
Em nota, a Anvisa disse que os protocolos estabelecidos no Brasil são rigorosos e estão em conformidade com as melhores práticas adotadas mundialmente. Dentre as diversas medidas, durante o cruzeiro, é obrigatória a testagem diária de 10% de todos os passageiros a bordo, bem como de minimamente 10% dos tripulantes, sendo que testes positivos não podem ser descartados por segundo teste. Além disso, são pré-requisitos para ingresso em cruzeiro a apresentação de comprovante de vacinação completa e testagem prévia para detecção da Covid-19.
No entanto, a Anvisa observa que em nenhum país do mundo os protocolos conseguiram mitigar totalmente as ocorrências a bordo, e que o aumento exponencial de casos dessas embarcações, relacionado provavelmente ao surgimento da variante ômicron, levou a agência a recomendar a suspensão temporária da temporada.
Em relação às alegações sobre descumprimento de medidas obrigatórias a bordo, a Anvisa esclarece que o cumprimento dos protocolos definidos para as embarcações é obrigatório e deve ser garantido pela empresa e pelo comandante da embarcação, e que está monitorando todas as operações de cruzeiro, e irá apurar qualquer irregularidade e desrespeito aos protocolos firmados com as companhias marítimas.
A Anvisa informou, ainda, que por hora não tem atualizações, e reforça que não há mais nenhum passageiro a bordo, apenas a tripulação residual.
O g1 também entrou em contato com a MSC Cruzeiros, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem. Com relação aos tripulantes infectados, a Costa afirma que não está divulgando os números.
Tripulantes com Covid-19
O número de tripulantes de cruzeiros marítimos na costa brasileira diagnosticados com Covid-19 mais que dobrou em dois dias de testagem, segundo a última atualização da Anvisa, divulgada na noite de 6 de janeiro.
Cinco navios atuam na costa brasileira. Nestes navios, o número total de tripulantes com Covid-19 passou de 184 para 505, de acordo com os boletins emitidos pela Anvisa na última terça (4) e na quinta-feira à noite.
Os navios que registraram o maior número de casos entre os tripulantes foram o Costa Diadema, com 204, e o MSC Splendida, com 127. Os dois estão em quarentena no Porto de Santos. A embarcação que registra o menor número, 12, é o Costa Fascinosa.
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