Litoral

Negros revelam aumento da autoestima com transição capilar após anos alisando os fios: ‘era como uma prisão’


Cabeleireiro e designers de sobrancelhas falam sobre racismo e da importância da evolução dos debates para que criassem coragem e confiança para assumirem os cabelo crespos. Entrevistados da Baixada Santista relatam ofensas e comentários negativos que já receberam por terem cabelo crespo
Arquivo Pessoal
“Duro”, “sujo”, “ruim”, “feio”. Essas são algumas das ofensas ouvidas por anos pelo cabelereiro Daniel Wesley Ferreira da Silva Barbosa e pelas designers de sobrancelha Julia Victor da Silva Santos e Gisele Cristina da Silva, com relação aos seus cabelos. Em comum, essas pessoas têm a pele preta e o cabelo crespo.
No entanto, após anos alisando ou cortando os fios, os moradores da Baixada Santista, no litoral de São Paulo, ouvidos pelo g1, decidiram enfrentar o medo do julgamento e assumir o cabelo crespo natural, passando por uma transição capilar.
“Era como uma prisão. O pessoal chamava de cabelo duro, tirava sarro na rua, na escola, e eu tinha que cortar. Cresci dentro dessa prisão. Minha família é toda de negros, e mesmo entre nós, tinha esse preconceito. Cresci vendo meu irmão cortando, minhas irmãs e minha mãe alisando”, relembra o cabeleireiro de 22 anos, morador de Itanhaém.
Daniel conta que sempre escutou comentários negativos a respeito do próprio cabelo, por isso, sempre cortava e usava boné, o que o deixava triste, já que ele não se sentia bem com o corte, mas achava que era errado não cortar um cabelo crespo.
“Já começa por eu ser negro, aí, cabelo ‘duro’, e não tinha roupas tão legais, então, não era aceito pelas pessoas. Imagina 80% da sua autoestima estar no seu cabelo, e você ser obrigado a cortar. Isso é uma coisa que te oprime. Eu me olhava no espelho e me via feio. Graças a Deus, hoje em dia eu me aceito demais, aceito mais minha pele”, afirma.
Cabeleireiro conta que deixar o cabelo crescer aumentou sua autoestima, após anos cortando e usando boné
Arquivo Pessoal
Mesmo ouvindo diversas ofensas racistas, que por muito tempo foram intituladas como “brincadeiras”, o cabeleireiro decidiu deixar os fios crescerem, em 2020, mas desistiu e cortou novamente. Porém, em janeiro de 2021, começou a cuidar e a deixá-los crescer outra vez.
“Foi bem estranho no começo. Eu tenho muita timidez e ansiedade, e isso me atrapalhava muito. Na escola, antes de me preocupar com os estudos, me preocupava com minha estética, porque tinha medo de receber ‘zoações’. Mas, hoje em dia, é o contrário, até perguntam como cuido. Comecei a ignorar a opinião dos outros e a dar mais importância às minhas origens, que são africanas, e a estudar mais sobre”, explica.
As situações em que ele se sentiu discriminado pela cor da pele foram se tornando menos dolorosas com o tempo. Ele lembra que teve o sonho de ser jogador de futebol frustrado, após, durante um teste, ouvir que tinha que se esforçar o dobro para passar na frente de um menino branco, e no fim, ao descobrir que não havia sido aprovado, escutar um “está vendo?”, já que, de fato, ele não conseguiu.
Em outro episódio, um professor riu dele e disse que, “do jeito que é”, ele não conseguiria entrar para o Exército. Menos de um ano depois, ele foi aprovado no processo.
Daniel decidiu se tornar cabeleireiro após transição capilar, para ajudar outras pessoas a assumirem os fios naturais
Arquivo Pessoal
Após passar a ter prazer em cuidar do próprio cabelo, Daniel decidiu ajudar outras pessoas a se aceitarem, e se tornou cabelereiro. “Decidi ajudar outras pessoas a aceitarem o cabelo delas como são, ajudo a superarem essa timidez. Nunca é só um corte de cabelo, é sempre uma terapia. Minha mãe sempre me ensinou a pegar as coisas ruins e usar a meu favor, então, decidi usar a favor dos outros, também”, relata.
A designer de sobrancelhas Julia Victor, de 18 anos, moradora de Cubatão, iniciou a transição três vezes, até decidir seguir em frente com seu cabelo natural. O último processo começou em dezembro de 2019. “É um processo muito complicado, porque a partir do momento em que você aceita voltar ao seu natural, ouve muitos comentários negativos, que te colocam para baixo, até vindos da minha família, por ser um cabelo crespo”, diz.
Jovem desistiu da transição duas vezes, e na terceira, decidiu dar continuidade, aceitando os fios crespos
Arquivo Pessoal
Dentre os diversos comentários, as pessoas a incentivam a fazer outras coisas com o cabelo, ao invés de deixá-lo natural. Afirmam que ela teria que raspar a cabeça, caso tivesse piolhos, e até questionam se ela penteia os fios.
“Eu estou aprendendo que não preciso passar todas essas coisas [produtos para alisar] no meu cabelo para ele ser bonito. É um processo libertador, porque a partir do momento em que você realmente se aceita, você não está nem aí para o que as pessoas dizem de você. Eu estou sentindo minha autoestima elevada, coisa que eu não tinha”, relata.
Apesar de ainda ouvir comentários negativos, que a magoam, ela segue se amando com o visual natural. “A gente pensa ‘ah, é porque é uma pessoa mais velha’, mas eu acho que, independentemente de você gostar ou não, você não tem o direito de falar esse tipo de coisa para alguém. Penso que, se fosse uma criança no meu lugar, se fosse a Júlia de 9 anos, eu não ia conseguir me aceitar do jeito que eu sou”, desabafa.
Inseguranças
Gisele ficou três dias mal após cortar o cabelo, mas depois começou a gostar do novo estilo, em São Vicente, SP
Arquivo Pessoal
Mudar e decidir ir contra tudo o que ouviu ao longo da vida não é uma decisão fácil. Em muitos casos, diversas mulheres desistem da transição capilar, por não conseguirem se achar bonitas durante o processo. A também designer de sobrancelhas Gisele Cristina da Silva, de 35 anos, moradora de São Vicente, alisou o cabelo com produtos por 15 anos, e quando decidiu cortar, passou três dias sem sair de casa.
“Quando cortei, não conseguia nem amarrar, então, nos três primeiros dias, eu me senti mal com minha aparência, nem quis sair de casa, mas depois, passei a me amar, e hoje estou gostando”, conta. Gisele explica que começou a alisar o cabelo porque acreditava que essa era a forma mais fácil de se cuidar de um cabelo crespo ou cacheado. No entanto, o processo era cansativo e emocionalmente doloroso.
“Quando eu tinha que fazer a raiz do cabelo, quando ela estava enrolada e eu não conseguia, por falta de tempo, eu ficava muito para baixo, porque, na minha cabeça, meu cabelo tinha que ser super liso, porque esse era o jeito certo. Já cheguei a chorar várias vezes por me sentir mal com o meu cabelo”, relembra.
Gisele conta que já ouviu diversas críticas de pessoas dizendo que ela não deveria ter cortado o cabelo ou feito a transição, e até que o corte havia a envelhecido. Porém, após se acostumar com o novo visual, ela passou a cuidar dos cachos e a desenvolver mais confiança e autoestima.
“Acho que, quando você transmite confiança, as pessoas ficam mais acuadas para te ofender. Eu tinha vontade, só não tinha coragem. Mas, hoje em dia, as mulheres estão mais seguras, e ver tantas voltando ao seu cabelo original me deu mais coragem”, conclui.
VÍDEOS: g1 em 1 Minuto Santos

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