Litoral

Instrutora deixa emprego de 18 anos para ‘encorajar’ mulheres a dirigirem em SP: ‘agenda lotada’


Josiane Sena, de 42 anos, está há três treinando motoristas já habilitados a aperfeiçoaram técnicas de direção, ajudando aqueles que têm medo ou trauma causado por acidentes. Instrutora deixou emprego de quase 20 anos em autoescola para ensinar habilitados a dirigir na Baixada Santista
Arquivo Pessoal
A instrutora Josiane Sena, de 42 anos, abandonou o emprego fixo em uma autoescola de Santos, no litoral de São Paulo, para investir em um sonho: ensinar pessoas já habilitadas a dirigir, por meio de aulas particulares. Ao g1, Josiane contou que a maioria dos clientes que atende é formada por mulheres habilitadas que não dirigem por medo, traumas com acidentes ou falta de técnica. Segundo ela, homens também a procuram para aprenderem a dirigir, mas pedem descrição, por se sentirem envergonhados com a situação.
“Trabalho com homens e mulheres, mas eles são minoria. Sempre falo para todos os meus alunos que nasce um menino e ele ganha um carrinho, e quando nasce uma menina, ela ganha boneca. É cultural, é da nossa sociedade. Eles têm vergonha, se sentem cobrados e na obrigação de saber dirigir. Ninguém é obrigado a saber fazer algo com perfeição, você pode se aperfeiçoar, aprender, não precisa ter vergonha. O homem, geralmente, ou ele dirige ou fala que não tem vontade, ele nunca fala que teve dificuldade de aprender a dirigir”, diz.
Na profissão há 21 anos, Josiane, que atualmente mora em Praia Grande, começou a carreira na área de formação teórica dos condutores, mas sempre teve vontade de ir para as ruas ensinar a parte prática aos alunos. “Adorei, me identifiquei, e estou até hoje. Trabalhei 18 anos em autoescola, e faz três anos que pedi as contas e passei a trabalhar com pessoas habilitadas que, por alguma razão, têm medo, trauma e insegurança”.
Ela conta que, durante o período em que trabalhou na autoescola, muitos alunos, após o processo de habilitação, a procuravam para aulas particulares. “A pessoa tirava carta comigo, e depois de um tempo, não conseguia dirigir, e entrava em contato. Eu percebia que era muita gente que precisava, que tinha medo, e comecei a dar aula particular aos fins de semana, feriado e após o meu horário de trabalho”.
Josiane Sena dá aula para pessoas que têm medo, trauma de acidentes ou falta de técnica para dirigir
Arquivo Pessoal
Agenda lotada
De acordo com Josiane, a procura por aulas particulares foi aumentando, e como a filha dela passou em medicina, as despesas da casa ficaram maiores, e ela passou a se dedicar mais ainda aos “bicos”. “Não dei conta de atender ao número de pessoas que me procuravam, saí da autoescola e foquei só em dar aulas particulares. Comprei um carro, fui para São Paulo, onde coloquei duplo comando, mandei adesivar, para ficar igual aos de autoescola e as pessoas identificarem”, lembra.
“Foi crescendo, tomando uma proporção que, todo fim de semana, eu tinha aula, saía da autoescola às 18h e ficava até 22h fazendo aula particular. Um dia, em casa, comecei a fazer conta, e o salário estava igual, então, pensei que trabalhar o dia inteiro, para mim, melhoraria minha situação financeira. Criei a página, virou uma empresa, sabe? Cresceu. Hoje, trabalho com o meu marido, e temos dois carros. Eu faço a base do aluno, e em um certo momento ele pega, e depois volta comigo para finalizar”, explica.
Diferencial
Para Josiane, o fato de rodar a Baixada Santista para atender clientes de Santos, São Vicente, Praia Grande e Cubatão é um grande diferencial oferecido por ela. “A procura é gigantesca, sabe? A grande parte é de mulheres que não dirigem, e elas carregam alguma situação, trauma, ou sofreram acidente, foram dirigir com o marido ou pai, e não deu certo. Tem muitas pessoas habilitadas que não conseguem dirigir”.
Além disso, Josiane faz questão de incluir nas aulas os principais trajetos que os alunos vão ter que fazer no dia a dia. Um cliente que mora em Praia Grande, mas trabalha em Santos, por exemplo, vai dirigir esse trajeto junto com a instrutora para praticar. “Acaba sendo um trabalho diferenciado. Trabalho completamente diferente de autoescola. Coloco os alunos nas principais avenidas, as mais movimentadas, coloco eles em rodovia. Na autoescola, a gente só prepara o aluno para a prova, então, posso colocá-las em qualquer situação, subo morro, faço aula de uma cidade para outra, são aulas bem diferenciadas”.
Para Josiane, um veículo adaptado com duplo comando também é importante no processo de treino para habilitados. “Sem comando, você fica limitada. Com ele, consigo colocar o aluno em qualquer situação de trânsito, pois, do lado do passageiro, tenho freio e embreagem. Se ele erra, consigo ajudá-lo e controlar o carro, por isso que as aulas são bem diferenciadas, e levo o aluno para qualquer lugar”.
Atualmente, Josiane tem uma agenda lotada de alunos interessados em se aperfeiçoar como motoristas
Arquivo Pessoal
Pandemia
Após a mudança de emprego, Josiane se viu diante de uma pandemia, e precisou encarar as dificuldades do empreendedorismo. Sem carteira assinada, 13º, férias e todos os benefícios que um empregado possui, ela contou com as reservas que tinha para sobreviver ao período de crise. “Parei de trabalhar totalmente, tudo muito imprevisível, com medo e incerteza. Passei a trabalhar para mim, e não tinha nada disso. Você ganha mais, mas acaba trabalhando mais, a responsabilidade é maior, e não tem esses benefícios”.
Alguns alunos que ficaram em casa, ou realizando trabalho de forma remota, tentaram agendar aulas particulares com ela durante os períodos mais críticos da pandemia. “Por incrível que pareça, queriam fazer aula, ficavam me chamando, mas eu peguei, tive Covid-19, tive muito medo, e decidi que não ia trabalhar, pois correria muito risco. Quando liberou, voltei a trabalhar, mas depois veio o lockdown de novo. Passei muito medo e dificuldade financeira, se não fosse algumas economias guardadas, eu não sei o que aconteceria”.
A questão do aumento dos combustíveis também dificulta muito a profissão de Josiane. “Nós tivemos, em uma única semana, quatro aumentos, ou seja, a cada dia, tinha um preço nas bombas, e eu não repassei, para continuar no mercado. A aula continua R$ 90, porque se eu repassar, vai para R$ 120, e fica inviável [para os alunos]. As pessoas ainda estão com o trabalho incerto, sem dinheiro, em uma fase muito difícil”.
O principal gasto que Josiane tem, atualmente, é para abastecer os veículos que ela e o marido usam nas aulas. “Combustível eu gasto R$ 240 por dia, então, em dez dias, tenho o gasto de R$ 2,4 mil. Eu não pago salário, mas se tivesse funcionário, teria esse custo. A manutenção [dos carros] é variável, depende do que se quebra”.
Instrutora sonha em abrir uma escola de treinamento para alunos habilitados
Arquivo Pessoal
Perfil dos alunos
A primeira aula, chamada por ela de “avaliação”, dura 50 minutos, tempo suficiente para Josiane conhecer o perfil do aluno e conseguir identificar a quantidade de aulas que ele irá precisar. “Tenho alunas que, na primeira aula, coloco para andar e elas andam, conhecem a técnica, então, o problema está no medo, na insegurança. Onde eu coloco para andar, vai, o que eu peço para fazer, faz. Esse é o perfil típico de apenas medo, e conversando, elas contam que dirigiram com o marido e ele começou a gritar, e aí criou um bloqueio”.
Em contrapartida, Josiane tem alunos que não têm medo nenhum, mas não possuem técnica. “Não sabem o que é freio, não sabem o que é embreagem, não sabem o que é acelerador e nem lidar com as marchas. [Nesses casos] vou começar a trabalhar técnica, e ele sai piloto”.
Há, também, casos extremos, segundo a instrutora, que são alunos que sofreram acidente, criaram um bloqueio e esqueceram as técnicas. “Com essas pessoas, o trabalho tem que ser diferente. Faço trabalho de recuperação de confiança, para depois colocar no trânsito”.
Cada aluno apresenta um tipo de dificuldade e um tempo para o desenvolvimento. Por isso, a quantidade de aulas de treinamento varia de pessoa a pessoa. “Uma pessoa que só falta técnica, em dez aulas, ou seja, cinco encontros, está boa. Se é trauma de acidente, isso vai levar mais tempo, em torno de 20 ou 30 aulas, ou seja, de dez a 15 dias. Às vezes, até me surpreendem e deslancham, varia muito”.
Futuro
O sonho da instrutora é expandir, e quem sabe, no futuro, abrir uma escola para treinamento de pessoas habilitadas. “Nós temos um trânsito que é caótico, pessoas que só colocam o carro em movimento, que não têm técnica alguma, e expõem elas e as demais pessoas ao risco. Acho que meu trabalho é de extrema importância. Sem contar que lido com o medo e sonho das pessoas. Elas me procuram e entregam nas minhas mãos o medo, frustração, trauma e o sonho de dirigir, então, gostaria de continuar trabalhando com isso”.
O reconhecimento pelo trabalho é inspirador, e motiva Josiane a continuar no ramo. “Sou muito realizada. Se eu soubesse que seria esse sucesso, teria começado muito antes. O reconhecimento das alunas, a importância que tenho na vida delas, nem eu mesma imaginava. Hoje em dia, trabalho com professoras, enfermeiras, dentistas, mulheres de diferentes profissões, e é gostoso conversar com elas, a troca de experiências”, conclui.
VÍDEOS: g1 em 1 Minuto Santos

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