Litoral

Única oficial de manutenção da CET de Santos fala sobre machismo na área: ‘não sabem o que é ser mulher’


Pintora de bondes trabalha na empresa há 12 anos, e cresceu com seu esforço diário no setor de serviços gerais. Única oficial de manutenção da CET de Santos fala sobre machismo na área: ‘não sabem o que é ser mulher’
Divulgação/Raimundo Rosa/PMS
“Foi promovida porque é mulher”. “O chefe gostou de você porque é mulher”. Esses são alguns dos comentários que a pintora automotiva Maria Aparecida Alves, de 38 anos, ouviu de alguns colegas durante seus 12 anos de trabalho como oficial de manutenção em Santos, no litoral de São Paulo.
Apesar das “ofensas indiretas” que ela recebeu em sua carreira, ela não deixa de se orgulhar de seus anos de trabalho como a única oficial de manutenção da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de Santos.
Em entrevista ao g1, a pintora automotiva afirmou que, desde o começo, nunca teve medo do trabalho em serviços gerais. “Quando prestei o concurso, sabia o que teria que fazer. Eu escolhi o serviço geral, pois sempre me interessei”, conta. Segundo ela, quando se inscreveu para realizar a prova, pensava na estabilidade que um cargo público poderia lhe dar. “Como eu também já tinha interesse em fazer esse tipo de trabalho, sabia que daria tudo certo”.
Maria afirma que um dos momentos que lhe marcaram foi a posse de seu cargo público. “A chefe do Recursos Humanos à época me disse que eu não estava lá para servir café. Eu disse que tinha lido o descritivo, e sabia muito bem qual seria a minha função”, relata.
A pintora diz que, no início, não sabia o que encontraria dentro da empresa, já que se trata de uma área “masculinizada”. Segundo ela, foi preciso “cortar um dobrado” para seguir em frente e continuar no ramo. “Nunca deu tempo de ninguém ser diretamente machista comigo, eu sempre rebati, e nunca fiquei calada”, afirma.
Entre lixas, vernizes e acabamentos, a pintora trabalha oito horas diárias de expediente, e diz que “segue a rotina dos bondes”, já que trabalha como restauradora dos veículos. “Vou fazendo pequenas reformas nos bondes que não estão rodando”. Agora, Maria Aparecida aguarda a chegada do Bonde Arte, que será seu maior trabalho nos próximos dias.
Entre lixas e acabamentos, pintora trabalha 8 horas diárias e diz que ‘segue a rotina dos bondes’
Divulgação/Raimundo Rosa/PMS
Trajetória
Em 2010, Maria Aparecida trabalhava como auxiliar, ajudando pedreiros e encanadores. Cerca de cinco anos depois, a promoção para oficial de manutenção na área de pintura surgiu, e então as piadas vieram à tona. “Eles falam de mulher, mas não sabem o que é ser uma mulher”.
Segundo ela, com o passar do tempo, os outros funcionários passaram a ter mais respeito. “A promoção que eu recebi foi um reconhecimento do meu trabalho, mas a questão de as pessoas passarem a me respeitar foi a melhor coisa possível que me aconteceu”, diz.
“Eu nunca acreditei que iria mudar a cabeça das pessoas de uma hora para a outra com relação ao machismo”. Ela afirma que percebeu que a situação havia mudado quando sentiu que já estavam falando de uma forma diferente, sem grosserias ou agressividade com as palavras.
“Meu ex-marido sempre me incentivou a estudar e a trabalhar depois que nosso filho foi crescendo”. Eles ficaram casados por 19 anos, e com ele, Maria Aparecida aprendeu questões como empoderamento e filosofia, já que ele cursava licenciatura de Filosofia na época. Ela diz que, por causa de seu ex-marido, começou a querer saber mais sobre a sociedade. “Eu li Simone de Beauvoir, que me despertou para o feminismo, e Djamilla Ribeiro, também para a questão do feminismo negro”, relata.
A pintora afirma que a CET foi uma sala de aula de aprendizado para ela, já que, antes, não ligava para os pequenos gestos de machismo que recebia. “Eu fui vendo, vivendo e aprendendo. É um processo, e eu ainda estou lidando com ele, mas se eu estou aqui, e faço o mesmo trabalho que eles, então, por que me tratam de forma diferente?”, questiona.
Hoje em dia, Maria acredita que seus companheiros são mais conscientes. “Antes, me falavam ‘você é muito radical’, e eu respondia que eles é que deveriam ter mais consciência”. Com a troca que a pintora teve com seus companheiros de equipe, ela também os ajudou a entender as esposas, amigas e filhas deles. “Eu sempre falo: ‘vocês não têm que só me respeitar, mas respeitar todas as mulheres que passarem pela vida de vocês”, conta.
“O mundo ainda está muito ruim para as mulheres. Eu não sinto o que todas as mulheres sentem, só gostaria que elas soubessem sobre seus direitos”, conclui.
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