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Saiba quem é Anatoliy Tkach, que a guerra converteu em embaixador informal da Ucrânia no Brasil


Encarregado de negócios de 44 anos concedeu entrevista ao g1. Em meio à invasão da Ucrânia pela Rússia, ele substituiu na prática embaixador que deixou o país em dezembro. Encarregado de negócios da embaixada da Ucrânia no Brasil lê cartas de apoio de crianças
Dois anos depois de chegar ao Brasil para uma segunda temporada no país, o diplomata ucraniano Anatoliy Tkach, 44 anos, teve a rotina radicalmente alterada.
Entre fevereiro de 2020 e o início deste ano, na condição de conselheiro da embaixada do país em Brasília, ele se ocupava principalmente de auxiliar o embaixador Rostyslav Tronenko em reuniões com autoridades e empresários brasileiros.
Mas, em dezembro do ano passado, o período de Tronenko como embaixador se encerrou sem que até hoje um substituto tenha sido indicado.
Com isso, em um dos momentos mais críticos da história da Ucrânia — a invasão do país por tropas russas —, Tkach se converteu involuntariamente em uma espécie de embaixador informal, principal representante e porta-voz dos ucranianos no Brasil, concedendo entrevistas quase diárias a jornalistas, em aparições frequentes na mídia brasileira.
A guerra fez a representação diplomática ucraniana em Brasília se tornar visada. Nas últimas semanas, a até então pacata Embaixada da Ucrânia no Brasil — uma casa no Lago Sul, região nobre de Brasília, identificada com a bandeira azul e amarela do país — passou a receber visitas de apoiadores e simpatizantes, que comparecem para deixar flores e mensagens de apoio.
Um carro da Polícia Militar também passou a ficar permanentemente estacionado na frente da casa. Isso porque, pouco antes do início dos ataques russos, um e-mail trouxe um alerta. Escrita em português, a mensagem ameaçava a embaixada com um ataque. Os policiais passaram então a intensificar as rondas nas proximidades e, desde o início do conflito, fazem uma segurança permanente.
“Existiam várias informações que, por sorte, não foram confirmadas. Mas nós pedimos para reforçar a segurança”, contou Tkach em entrevista concedida ao g1 na última terça-feira (8).
Com a mudança drástica na rotina, o diplomata se tornou responsável por apresentar aos brasileiros a a versão ucraniana do conflito, por meio de relatos periódicos para jornalistas, com base em informações que recebe de outros diplomatas e do Ministério das Relações Exteriores do país. Além disso, também direciona pedidos e recados ao governo brasileiro.
Publicamente, o encarregado de negócios já cobrou, por exemplo, que o presidente Jair Bolsonaro fosse à Ucrânia, como forma de “equilibrar” a visita feita à Rússia na véspera do conflito, pediu ao Brasil que condenasse os ataques e também que aplicasse sanções econômicas ao país governado por Vladimir Putin.
Também chegou a dizer que o presidente Jair Bolsonaro era mal informado ao defender a “neutralidade” do Brasil no conflito — na Organização das Nações Unidas (ONU), o representante do Brasil adotou posição contra a guerra, a favor da paz e condenou a invasão russa. Depois, quando o ministro das Relações Exteriores, Carlos França, tentou justificar a declaração de Bolsonaro, dizendo que o sentido da declaração do presidente era o de “imparcialidade”, Tkach refutou: “Nós sabemos quem é o agressor. Há vítimas. Não entendo como que imparcialidade pode se aplicar nessa situação”.
“O nosso propósito era o de resolver a crise por via diplomática e para fazer pressão sobre a Rússia, para que não acontecesse um conflito, em princípio. E, depois [de iniciada a guerra], para que acabe logo. Nós estamos vendo que o Brasil é coerente nas suas votações, e isso é muito importante”, afirmou o diplomata ucraniano na entrevista ao g1.
Tkach estima em 600 mil o número de descendentes de ucranianos que vivem no Brasil, comunidade que mais frequentemente se relaciona com a embaixada.
O encarregado de negócios da embaixada da Ucrânia no Brasil, Anatoliy Tkach, exibe cartas de crianças enviadas em apoio ao país
Marcela Mattos / g1
Quem é e o que faz
Tkach é formado em relações internacionais pela Universidade Nacional de Kiev.
Entre 2012 e 2017, viveu a primeira temporada no Brasil, quando atuou como secretário de Imprensa, Cultura e Relações da embaixada.
Tkach retornou a Brasília em fevereiro de 2020, dessa vez como conselheiro da representação ucraniana. Com a saída do embaixador Tronenko, ascendeu ao posto de encarregado de negócios.
Na função, acompanhava o então embaixador, Rostyslav Tronenko, em reuniões com a diplomacia brasileira e autoridades, entre as quais Filipe Martins, chefe da assessoria internacional da Presidência da República, e Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro e ex-presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados.
“Nós tratamos da agenda bilateral, mantivemos reuniões e planejamos visitas. Nós tínhamos contato a nível de vice-ministros, a nível da comissão intergovernamental mista de comércio. Temos boas relações aqui”, contou.
Agora, ressalta, os principais esforços estão concentrados em fornecer ajuda à Ucrânia. A embaixada encaminhou ao Itamaraty um pedido de ajuda, listando os principais insumos de que o país precisa. Na última segunda-feira (7), um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) decolou rumo à Polônia para resgatar brasileiros e levou 11,6 toneladas de material de ajuda humanitária.
“A ajuda humanitária foi atendida. É o que nós mais precisamos neste momento. Eu espero que haja mais, porque, infelizmente, a guerra não terminou e cada dia mais pessoas ficam nessa situação de vulnerabilidade. É só ver a dinâmica de refugiados: mais de 100 mil por dia que saem”, diz o encarregado de negócios.
O próximo passo, afirmou, é tratar do visto brasileiro concedido aos ucranianos em fuga da guerra. O ucraniano avalia que a maioria dos refugiados deve ficar na Europa, mas não descarta a vinda de familiares para cá e, por isso, diz que tem entre as preocupações como essas pessoas que eventualmente vierem vão viver no Brasil.
“Os governos estaduais também já estão propondo o que podem fazer para acolher os refugiados”, contou.
Além do apoio dos governos federal e estaduais, Tkach relata receber mensagens diárias de médicos, militares e pessoas comuns dispostos a ir à Ucrânia tanto para lutar contra as forças russas quanto para ajudar os atingidos pela guerra.
Além disso, cartas feitas por crianças também foram entregues à embaixada. São desenhos feitos a mão, pintados a giz e a lápis, com mensagens de apoio – inclusive traduzidas para o ucraniano (veja vídeo). “Foi o que mais me tocou”, conta o encarregado de negócios.
Familiares na Ucrânia
Enquanto negocia novos pacotes de ajuda brasileira para a Ucrânia, o diplomata acompanha a situação de familiares no país.
O pai, de 69 anos, está em Kiev, a capital, e não quis se mudar para os abrigos montados para a proteção dos ataques.
“Todos os dias nos falamos para eu perguntar como ele está. Ele decidiu não ficar em um abrigo antiaéreo porque não é muito conveniente para dormir, para uma pessoa idosa é complicado. E ele fica em casa, mas não pode ficar o dia todo sentado, então cada dia vai para a rua, e isso tudo gera uma preocupação”, afirma.
Ele ressalta que, por “sorte”, o pai está em uma parte da cidade mais distante do conflito. “Mas também sei que no bairro houve mísseis que atingiram alguns prédios na região. Mas ele é muito positivo e não fala nada negativo. Fico preocupado”, conta.
A sogra de Tkach também está em Kiev. Segundo ele, a solução encontrada foi improvisar locais protegidos dentro de casa.
“Eles estão encontrando alguns espaços em casa que são mais seguros. Por exemplo, minha sogra está dormindo em uma cozinha, porque ela serve como uma espécie de porão, porque fica mais no subsolo”, conta.
De acordo com o ucraniano, tanto o pai quanto a sogra recusaram a proposta de deixar o país. “Eles argumentam que têm a própria casa e que querem ficar nelas.”
A vida no Brasil
Acostumado à neve, Tkach diz apreciar o clima do Brasil. Nas horas vagas, gosta de frequentar cachoeiras e pescar tucunaré em um pesqueiro perto de Brasília.
O diplomata afirma também ser entusiasta de filmes e livros brasileiros – meio que encontrou para aprender o idioma.
“Desde a minha primeira vinda ao Brasil eu comecei a primeiro ler livros e aprender a gramática. E, para entender de ouvido, tenho uma técnica que é pegar um DVD e tentar escrever as frases. Quando já tem algumas palavras que não entendo de jeito nenhum, então ligo as legendas”, conta Tkach.
Ainda com bastante sotaque, ele diz que pretende passar a ter aulas para “sistematizar” o que aprendeu sozinho. Isso porque o período do encarregado de negócios no Brasil dura pelo menos mais dois anos. Ou seja: ele só deve voltar para a Ucrânia em 2024, quando, ele acredita, “a força do povo” já vai ter ajudado a reconstruir o país.
Questionado se acredita na vitória ucraniana, é enfático: “Para nós, a derrota significaria a perda do Estado. Por isso, não existe esta possibilidade”.

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