Litoral

Jovens de SP são chamados para congresso em Portugal após projeto sobre combate à pobreza menstrual


Estudantes de Direito administram a ONG Girl Up Caiçara, que distribui absorventes a mulheres que não têm condições de comprá-los. Jovens foram chamados para congresso em Portugal após projeto sobre combate à pobreza menstrual
Guilherme Paixão
Dois estudantes universitários e ativistas da Baixada Santista, no litoral de São Paulo, foram chamados para apresentar um projeto de autoria deles no Congresso Internacional sobre Direito e Democracia no Século XXI, que será realizado na Instituto Universitário Justiça e Paz, em Portugal, em abril deste ano. A ideia surgiu por meio da ONG Girl Up Caiçara, que combate a pobreza menstrual na região.
Em entrevista ao g1, a estudante de Direito Isabela Cavalcante, de 19 anos, contou que tudo começou quando ela e seu colega de equipe Vitor Santos Oliveira, de 22, desenvolveram o artigo científico “A pobreza menstrual como fator impeditivo na promoção dos direitos humanos fundamentais”. “Nós fizemos na força da coragem, e esperamos a resposta por uns três meses”, lembra.
Agora, os jovens vivem a expectativa de viajar pela primeira vez para fora do país. “Minha mãe veio de uma origem muito humilde, ela era ‘boia-fria’ em Maceió [AL], e sempre me disse que a única coisa que poderia me deixar de herança é a educação”, conta Isabela.
A jovem ainda luta para arrecadar dinheiro suficiente para conseguir viajar em abril deste ano. “Não tivemos ajuda de ninguém, somente das pessoas da ONG. Espero conseguir ir até o congresso, a felicidade da minha mãe foi o mais impactante para mim”, diz a estudante.
Jovens foram chamados para congresso em Portugal após projeto sobre combate à pobreza menstrual
Guilherme Paixão
Isabela esteve presente na coleta de dados, que realiza em conjunto com líderes comunitários da região. “Mais de 20% das meninas até 19 anos não possuem acesso a saneamento básico, impossibilitando uma boa higiene íntima, sendo que 90% dessas frequentam a rede pública de ensino. Em São Vicente, mais da metade das mulheres que atendemos tenta uma consulta com ginecologista e acaba ficando à deriva da grande espera do sistema de saúde”.
Segundo ela, nas comunidades de Santos, é frequente o relato do uso de papelão para conter a menstruação.
“A participação do pessoal da ONG Girl Up foi muito importante, porque conseguimos fazer um mapeamento do problema da pobreza menstrual na região”, diz Oliveira.
Em dezembro do ano passado, os dois colegas enviaram o estudo aos avaliadores do congresso internacional, e no último dia 15, foram convidados a apresentar o projeto e o estudo no evento, que ocorrerá em abril de 2022.
O Congresso Internacional sobre Direito e Democracia no Século XXI (JUST2022) é promovido pela sociedade de investigação e pesquisa DEE International Publishing Lda, com o apoio de diversas entidades parceiras na Europa e no Brasil, nomeadamente no suporte institucional com a Fundação Arcadas de apoio a Faculdade de Direito da USP e a CONAMP – Associação Nacional dos Membros do Ministério Público.
O evento busca criar um fórum eco global de debate e reflexão entre sociedade civil e acadêmica sobre os temas democracia e justiça no século XXI, em um diálogo luso-brasileiro, contribuindo para o desenvolvimento da ciência e das instituições. Nesta 2ª edição, a proposta do JUST2022 é refletir o papel da desinformação no desenvolvimento das democracias no século XXI.
“Nesse congresso, pessoas do mundo inteiro vão falar sobre temas envolvendo direitos humanos, e poderemos relatar um pouco do que acontece no Brasil, como avançamos, e falar dos problemas que ainda existem, também”, explica Oliveira.
O artigo dos jovens será apresentado no congresso no decorrer dos dias 18 e 19 de abril.
Como tudo começou
Em 2021, Isabela foi apresentada à organização sem fins lucrativos Girl Up, que apoia meninas adolescentes e age junto à Fundação ONU. “Eu participo do programa Latin America Leadership Academy, que realiza conexões com várias pessoas do continente, e conheci a líder brasileira do projeto”, conta.
“Eu descobri que mais de 20% das meninas no Brasil perdem aulas por não poderem ir durante o período menstrual. Mais da metade das mulheres do Brasil não consegue comprar absorventes”. A partir daí, a estudante passou a ter contato e a se engajar no tema pobreza menstrual. Em fevereiro de 2021, Isabela fundou a Girl Up Caiçara, sede na Baixada Santista. Desde então, tem feito diversas ações e arrecadações de absorventes para ajudar mulheres que não têm condições financeiras de comprar absorventes.
As ações geralmente acontecem nos bairros Sambaiatuba, México 70, Aldeia Paranapuã e Quarentenário, em São Vicente; em frente ao Mercado Municipal, no José Menino e no Monte Serrat, em Santos; na Vila Sônia, em Praia Grande; e na Vila Noel, em Cubatão. Isabela tomou a iniciativa de tentar, junto a vereadores destes quatro municípios, estabelecer projetos de lei para a conscientização sobre a menstruação e distribuição gratuita de absorventes higiênicos.
Jovens foram chamados para congresso em Portugal após projeto sobre combate à pobreza menstrual
Allanis Ribeiro/A Tribuna
“Eu sempre fui um pouco antenado com as coisas que acontecem na política. Um dia, estava em um evento, e tinha um estande do Girl Up. Fui falar com as meninas do projeto, e foi ali que eu entendi as questões que envolvem a pobreza menstrual”, diz Oliveira. Isabela acabou chamando Vitor para ingressar no projeto, e ele a ajuda a administrar a sede na Baixada Santista desde então.
Ele conta que, nas ações da ONG, acaba falando com os meninos, em uma tentativa de também conscientiza-los. “Acredito que o primeiro passo para a mudança é entender o problema. Quando você chega à comunidade e mostra aos meninos quanto você gasta por ano para ter acesso aos absorventes, eles entendem que é algo difícil para muita gente, e que, pelo impacto que tem, deveria ser algo mais acessível”, diz.
Só em 2021, a ONG conseguiu distribuir 10 mil absorventes em comunidades da Baixada Santista. “Hoje, eu tenho 100 voluntários registrados, mas na ação, geralmente vão de dez a 20, depende da quantidade de pessoas que vamos atender”. Os pontos de arrecadação ficam nas casas dos próprios voluntários, que devem ser contatados pelo perfil no Instagram do projeto ou via WhatsApp.
Neste ano, quatro ações já foram realizadas, sendo uma no Centro de Santos, que distribuiu cerca de 100 absorventes e mais uma centena no Mercado Municipal da cidade. A última ação foi realizada no sábado (19), na Aldeia Paranapuã, em São Vicente, e distribuiu 50 absorventes higiênicos e 50 coletores menstruais.
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