Litoral

Refugiadas são acolhidas por família brasileira após saírem da Ucrânia


Mãe e tia de ucraniana que vive no Brasil tiveram um fim de semana à beira mar em Santos, no litoral de São Paulo. Refugiadas são acolhidas por família brasileira após saírem da Ucrânia
Matheus Tagé/Jornal A Tribuna
Duas refugiadas da guerra na Ucrânia tiveram momentos de paz e acolhimento à beira mar em Santos, no litoral paulista. Após incertezas e tensão, sem saber se conseguiriam sair do país, elas tiveram que deixar os homens da família na Ucrânia e sua pátria para buscar um lugar seguro. As duas foram resgatadas e acolhidas por parte da família brasileira que mora no Estado de São Paulo.
A ucraniana Myroslava Moroz, de 37 anos, conheceu o marido paulista na Crimeia, há 11 anos. Os dois se casaram e vieram morar no Brasil. Durante a pandemia, eles viveram por três anos na Ucrânia, junto com as duas filhas e com a família de Myroslava. Por conta do trabalho do marido, a família retornou para São Paulo há um ano. A ucraniana voltou a ter que lidar com a saudade, e não esperava pelo início de uma guerra em seu país de origem.
Por volta das 5h, ela recebeu uma ligação da mãe, que morava em Kiev, muito assustada. “Me ligou chorando, porque começou a guerra. Ela escutou explosões fora, e viu aviões voando”, conta Myroslava. A ucraniana no Brasil começou a ligar para outros familiares, como o pai, a tia e amigos que moram em território ucraniano para saber se todos estavam bem.
Família reunida na Ucrânia, antes da guerra
Arquivo Pessoal
Osteopata e massoterapeuta, Iryna Moroz, mãe de Myroslava, tentou sair de Kiev, mas não tinha gasolina suficiente para ir a outra cidade.
“Ela ficou se escondendo no subsolo, a cada vez que escutava um sinal de perigo. O prédio vizinho explodiu. Um pedaço de míssil caiu no prédio, e ele queimou do 9º ao 6º andar. As janelas do prédio da minha tia, do lado oposto, explodiram”, conta Myroslava, após ouvir o relato dos parentes.
Ucraniana casada com santista integra rede de ajuda a refugiados
Nos primeiros dias, Iryna não queria deixar Kiev. Somente após duas semanas de guerra Myroslava conseguiu convencer a mãe deixar o país. Ela pegou um trem em direção a Lviv. “Na noite anterior, a ferroviária foi bombardeada pelos russos. O trem que deveria demorar de cinco a sete horas fez outro retorno. Ela chegou depois de 16 horas, de pé, sem banheiro, sem água, no frio”.
Iryna recebeu apoio de uma amiga em Lviv, porque estava com a perna machucada. Durante esse período, ela também se juntou a um grupo de voluntários e prestou apoio psicológico a pessoas que chegavam na cidade. “Para as pessoas começarem a reagir. As pessoas chegavam nas estações de trem, e não têm casa, cidade, às vezes, nem família, nem parentes. Seu avô, tio, irmão, estão na guerra. Você está com crianças, sem saber para onde ir, e você nem queria sair. Ela acolhia essas pessoas”.
Myroslava e as filhas gêmeas, que moram no Brasil
Arquivo Pessoal
Depois de alguns dias, o marido de Myroslava conseguiu falar com a embaixada brasileira, que ajudou Iryna a ir para a Polônia, de carro. De Varsóvia, ela comprou uma passagem aérea e veio para o Brasil. A tia de Myroslava, a engenheira civil Olga Kucher, de 49 anos, também conseguiu deixar a Ucrânia, pela Hungria.
As duas estão morando com Myroslava, o marido e as duas filhas em um apartamento em São Paulo. Neste fim de semana, elas foram visitar Santos, onde mora a sogra de Myroslava. “As duas estão comigo, graças a Deus, cuidando das netas. Viemos ficar o fim de semana, colocar o pé no oceano, para recuperar um pouquinho”, conta ela.
Iryna e Cecilia durante passeio em praia de Santos, no litoral de São Paulo
Arquivo Pessoal
A aposentada Maria Cecília Terra, de 66 anos, sogra de Myroslava, diz que é um prazer recebê-las em Santos e ajudar de alguma forma. Ela fala que procura não comentar sobre a guerra com elas, mas trazer momentos de alegria e acolhimento. Durante o fim de semana, elas visitaram a praia e puderam curtir um pouco do calor brasileiro.
“Não quero ficar relembrando e perguntando como foi. Eu prefiro fazer com que elas estejam bem hoje, enquanto elas estão aqui, que estejam bem. Vamos ao mercado, fazer uma comida gostosa, jogar jogos, se divertir. Elas acordam pensando nisso, e dormem pensando nisso [guerra]. Eu não quero também ficar falando e estimulando, e você sofre. Elas são agradecidas a todo o tempo. Elas falam obrigada por muito pouco. Só o fato de receber elas aqui, elas são muito agradecidas”, conta.
Refugiadas são acolhidas por família brasileira, em Santos, após saírem da Ucrânia
Matheus Tagé/Jornal A Tribuna Jornal
Iryna e Olga não falam português, mas já começaram a estudar a língua. No dia a dia, elas acabam vendo as notícias sobre a guerra, e segundo Myroslava, a mãe e a tia têm sofrido muito, mesmo de longe, por tudo que viram e que estão vendo acontecer em terras ucranianas.
“Como elas estão vendo notícias o dia inteiro, elas choram o dia inteiro. Quando está tendo guerra na sua pátria, você não consegue sentir o horário, sentir gosto pela vida, ser atraído pelas coisas, fazer planos, viajar. Você está aqui, mas não está aqui”, diz.
Iryna e Olga são especialistas nas áreas delas na Ucrânia, e tinham bons empregos. Myroslava conta que tem procurado trabalho para elas no Brasil, mas ainda não sabe se elas permanecerão no território brasileiro. As duas têm muita esperança de voltar para a Ucrânia.
“Elas estão todos os dias torcendo para a guerra acabar e elas voltarem para casa. Minha tia já se inscreveu para ser voluntária no programa de reconstrução da Ucrânia, na parte legislativa de documentos. O nível de esperança e credibilidade de que a Ucrânia vai vencer é muito grande”, diz.
Pais e tios na Ucrânia
O pai, o irmão, os tios e avôs de Myroslava permanecem em várias cidades da Ucrânia. Myroslava se diz muito preocupada com os parentes, mas explica que o homem é considerado o protetor das mulheres e crianças. Por isso, permanecer no país em guerra é uma questão de honra para eles.
“Nem posso perguntar, insistir para ele vir, porque é um desrespeito. Para os nossos homens, protetores, isso é tratado como uma grande honra. Eles sentem honra em lutar, combater o ocupante, o agressor”, diz Myroslava.
O pai dela está na cidade de Uman, situada a cerca de 200 km ao Sul da capital Kiev. Ele conta que há risco todos os dias, mas que permanecerá no país. “Meu pai trabalha com cereais. Ele está fornecendo alimento para o exército e para as pessoas que não têm o comer. Meu tio abriu o restaurante, tudo gratuito, para alimentar o povo. Meus tios estão na defesa territorial, lutando. Todos estão fazendo tudo para a Ucrânia vencer”, conclui.
Iryna durante passeio em praia de Santos, no litoral de São Paulo
Arquivo Pessoal
VÍDEOS: g1 em 1 Minuto Santos

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