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Hospital público oferece ‘carinho e cuidado’ a pacientes crônicos em São Paulo

A necessidade de um espaço que recebesse pacientes crônicos que demandam tratamento de retaguarda e longa permanência fez com que o governo de São Paulo transformasse uma antiga clínica psiquiátrica em um hospital. Localizado na Riviera paulista, o Hospital Municipal de Guarapiranga utiliza a medicina integrativa para reabilitar pacientes que necessitam de cuidados prolongados e que não podem ser atendidos por unidades tradicionais de saúde. A maioria dos pacientes da instituição são pessoas acamadas com alguma lesão, principalmente com sequelas de Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou pós-Covid. Entre os pediátricos, as condições mais comuns são paralisia cerebral ou algum tipo de síndrome. Além da atenção médica, o trabalho também conta com atendimento social e acompanhamento psicológico. Segundo os diretores da instituição, muitas das pessoas que buscam o local não têm família para ajudar no cuidado com a saúde e alguns nem mesmo possuíam identificação antes de chegarem ao hospital. Atualmente, o local conta com 168 pacientes em tratamento, com ocupação de cerca de 90% dos leitos.

O trabalho começou em 2020. O espaço onde a unidade se encontra foi construído originalmente para atuar como clínica psiquiátrica, sob a responsabilidade do grupo católico Irmãs Hospitaleiras. As freiras administraram o local de 1969 até 2016, atendendo pacientes em estado grave. Contudo, há cerca de sete anos, o Sistema Único de Saúde (SUS) decidiu oferecer outro tipo de assistência a pacientes psiquiátricos, o que fez com que o hospital das Irmãs Hospitaleiras ficasse com poucos recursos para manter a operação e teve sua atuação limitada. Isso levou ao fechamento da instituição em 2016 e o espaço foi disponibilizado para aluguel. A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) informou que um contrato entre a prefeitura de São Paulo com a gestão do Instituto Nacional de Tecnologia e Saúde (INTS), via licitação pública, iniciou uma nova operação em junho de 2020. “A partir de então, a SMS adequou os serviços de saúde oferecidos no local de acordo com as principais demandas e necessidades da população da região: primeiro como hospital exclusivo para o tratamento de pacientes com Covid-19 e, em seguida, como instituição de longa permanência e hospital de retaguarda, com 106 leitos disponíveis para esse fim”, explicou o órgão, em nota.

Durante a pandemia da Covid-19, foram estruturados leitos para atender a demanda de cuidados que a doença exigia. No auge de internações da doença, em junho de 2021, o estabelecimento contava com 259 leitos, o que configurou o Hospital Municipal de Guarapiranga como a segunda maior instituição pública de saúde do país em número de unidades focadas em terapia intensiva. Após a pandemia, o projeto inicial foi retomado com foco em cuidados prolongados e clínica médica. Atualmente, o hospital conta com 186 leitos divididos entre clínica médica, UTI, cuidados prolongados para pacientes adultos e cuidados prolongados pediátricos. Os pacientes são encaminhados ao hospital pela rede pública de saúde após preencherem um formulário de solicitação.

Hospital Municipal de Guarapiranga

23 colaboradores do Hospital Municipal de Guarapiranga foram reconhecidos pela excelência nos atendimentos prestados aos pacientes e familiares | Arquivo pessoal/Reprodução

“Hoje, existe uma grande quantidade de pacientes que têm essa necessidade e que estão internados em unidades de alta complexidade. Por exemplo, um paciente em um leito em um hospital cirúrgico ocupa uma vaga de outra pessoa com uma patologia aguda a ser atendida. Ao trazer ele para cá, a rede de saúde ganha com o leito que é disponibilizado. E aqui temos um centro especializado para reabilitação e cuidados. Os pacientes que recebemos não precisam de tratamento médico específico, eles precisam de cuidados, humanização e atenção para que consigam se reabilitar e voltar à sociedade de forma segura”, esclarece o diretor técnico do hospital, Victor Panont. Para isso, o estabelecimento conta com uma grande equipe multidisciplinar que inclui fisioterapeutas, psicólogas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogas, entre outras especialidades. De acordo com Victor, essa atenção especializada faz com que os pacientes tenham uma recuperação mais rápida. “O que a maioria deles precisa é carinho e cuidado”, complementa.

Diretora geral do estabelecimento, Simone Araújo também observa que muitos dos pacientes possuem uma deficiência social que vai além da necessidade de convívio com outras pessoas. “Recentemente, nossa equipe de trabalho social conseguiu emitir mais de 20 carteiras de identidade. Os pacientes chegam aqui sem identificação. Muitos deles não têm família, então eles se tornam realmente moradores do hospital. Então, nosso trabalho passa por uma inserção social, reabilitação motora em muitos casos, representação psicológica e outras necessidades. Queremos de fato dar um conforto para esse paciente, dando suporte não apenas médico, mas emocional também para que eles possam ter qualidade de vida enquanto estão aqui”, afirma.

Tereza Bittencourt - Hospital Municipal de Guarapiranga

A paciente Tereza Bittencourt com seu fisioterapeuta no jardim do hospital | Arquivo Pessoal/Reprodução

A Irmã Cecília Baltazar, que fazia parte da gestão anterior do local, afirma que a mudança de foco do local, de clínica psiquiátrica para cuidado de pacientes de longa permanência, foi positiva. Ela avalia que o espaço está sendo utilizado para atender os doentes que mais necessitam. “Eu visitei o hospital outro dia e fiquei muito feliz de ver crianças com deficiência e velhinhos em fase quase terminal que estão sendo atendidos com dignidade. Eu acho que é muito bom que nossa estrutura esteja servindo para esse tipo de paciente. Está bem adaptado e os profissionais são muito atenciosos. Está cumprindo um objetivo importante para a sociedade”, compartilha. 

Para Simone Araújo, não é possível trabalhar com saúde sem se envolver emocionalmente com os pacientes. A diretora afirma que, quando os profissionais são capazes de gerar uma conexão emocional e ter empatia, conseguem oferecer um cuidado melhor. “A dor não é só física, mas também emocional. Muitos estão aqui sozinhos, sem família. Mostrar que você está disposto a dar sua atenção, que está ali, é um exemplo a ser seguido, avalia. Victor complementa que, nos hospitais, muitas vezes os profissionais não conseguem ter o tempo ou espaço para ter esse olhar. “Aqui conseguimos ver o quanto os pacientes precisam dessa parte de qualidade de vida. A gente vê que a recuperação é muito mais rápida, as famílias se sentem mais acolhidas e para a gente não tem preço ver a evolução”, complementa.

 

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