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Após extinguir a Cruz Vermelha na Nicarágua, Ortega cria a Cruz Branca


Nova entidade atuará sob parâmetros do regime sandinista, que confiscou bens e patrimônio da organização humanitária internacional proscrita. Funcionário da Cruz Vermelha abraça pai de vítima de uma enchente em Manágua em 2010. Entidade atuava em desastres na Nicarágua desde 1931.
Esteban Felix/ AP
Não bastasse a extinção da Cruz Vermelha Nicaraguense e o confisco de todos os bens da entidade criada em 1931, o regime comandado por Daniel Ortega criou a sua própria versão da organização humanitária: a Cruz Branca, que passa a ser subordinada ao Ministério da Saúde, sem o prestígio, o aval e a autonomia do organismo internacional.
A decisão foi atabalhoada e sacramentada na última sexta-feira (2) pela Assembleia Nacional, dominada pelo regime.
Na véspera, os deputados aprovaram a criação da Cruz Vermelha, dando ao governo sandinista a propriedade do símbolo e do patrimônio, mas, no dia seguinte, recuaram: revogaram a lei e, em caráter de urgência, batizaram a entidade com outro nome.
A dissolução da Cruz Vermelha, há três semanas, foi o golpe fatal da ofensiva de Ortega contra as organizações não governamentais: estima-se que mais de três mil entidades foram extintas nos quatro mandatos consecutivos em que o ditador rege o país.
A alegação era de que a organização violou os princípios de neutralidade nos protestos contra o governo em 2018, que exigiam a renúncia do ditador, prestando atendimento aos manifestantes feridos pela atuação das forças comandadas por ele.
Além das ONGs, o regime fechou 12 universidades privadas, suprimiu o Conselho Superior da Empresa Privada (Cosep) e 18 sindicatos de produtores, exilou à força mais de 300 prisioneiros políticos e dissidentes, retirando deles a nacionalidade nicaraguense.
Empreende uma cruzada contra a Igreja Católica no país, que levou o papa Francisco a qualificar a Nicarágua como uma ditadura grosseira e Ortega como um desequilibrado.
Motociclista passa diante de mural com o rosto de Daniel Ortega, presidente da Nicarágua (à esquerda), e do revolucionário César Augusto Sandino, durante as eleições gerais deste domingo (7), em Manágua
Andrés Nunes/AP Photo
Com a criação da Cruz Branca, o governo pega para si a missão de realizar atividades assistenciais de acordo com seus próprios parâmetros e não os estabelecidos pela Cruz Vermelha Internacional. A entidade atuava de forma independente no país desde 1931, com dois mil voluntários distribuídos em 28 sedes e dispunha de 63 ambulâncias.
A prestação de socorro em desastres naturais e conflitos, assim como a verificação das condições humanitárias de presos políticos, que caracterizam a excelência do organismo internacional, passam para a esfera sandinista e, por consequência, são rebaixadas.
“O plano da ditadura é que os cidadãos não tenham nenhuma organização autônoma a quem recorrer em caso de emergência”, resumiu o cientista político Felix Maradiaga, ex-candidato presidencial e atualmente um dos 300 exilados pelo regime.
O regime Ortega apresenta a Cruz Branca como uma instituição descentralizada, que atuará sob “o modelo cristão, socialista e solidário”. Quem não o conhece, que compre essa narrativa.

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