Guarujá

Família vê queimaduras em corpo de morto em ação policial no litoral de SP como marcas de tortura; perito não descarta


Laudo necroscópico não apresentou os ferimentos. Felipe Vieira Nunes, de 30 anos, foi morto durante a Operação Escudo, em Guarujá. Ao g1, um perito forense informou que as imagens das lesões ‘revestem características de queimadura’. Família de morto em operação policial, em Guarujá (SP), alega que corpo estava com queimaduras de cigarros e falam em tortura
Arquivo Pessoal
A família de Felipe Vieira Nunes, de 30 anos, morto pela PM durante a Operação Escudo, em Guarujá, no litoral de São Paulo, alegou que o corpo dele estava com marcas de queimaduras feitas com cigarro. A situação, segundo os parentes, indica um cenário de tortura.
Ao g1, o perito forense Eduardo Llanos afirmou, nesta sexta-feira (25), que, apesar da foto não ser nítida, a lesão “reveste características de queimadura”. Para o especialista, se comprovado que as lesões foram causadas por brasa de cigarro, não se pode descartar uma tortura e morte.
A Operação Escudo soma 22 mortes e começou em 28 de julho, mesmo data em que Felipe levou sete tiros e morreu. A ação foi deflagrada em resposta ao assassinato, um dia antes, do PM da Rota Patrick Bastos Reis, que fazia um patrulhamento na comunidade Vila Julia.
Acidente com espelho em 2020 deixou Felipe com sensibilidade em três dedos da mão. Família diz que ele não tinha forças para empunhar uma arma ou puxar o gatilho
Arquivo Pessoal
De acordo com Boletim de Ocorrência (BO), Felipe estava armado e morreu em confronto com policiais da Rota, que encontraram uma mochila com 526 porções de maconha com o jovem.
A família diz que as lesões nos braços de Felipe sugerem uma narrativa diferente da apresentada pelos policiais. “Eles alegam uma troca de tiros com a Polícia. Ia dar tempo de torturar ele em uma troca de tiros? […] foi totalmente forjado”, falou um parente, que prefere não ser identificado. Ele acredita ter acontecido uma omissão de informação ou manipulação do laudo necroscópico.
Uma testemunha informou aos familiares que ouviu Felipe dizer à polícia que não tinha arma, que era trabalhador, que vendia raspadinha e estava com a mão na cabeça. Ele também teria gritado por socorro. “Simularam como se fosse uma abordagem com troca de tiros”.
Exumação do corpo
Laudo necroscópico mostra locais em que Felipe foi atingido pelos sete tiros
Arquivo Pessoal
O perito forense Eduardo Llanos explicou que o médico legista tem a obrigação legal de relatar quaisquer ferimentos existentes nos corpos durante as necrópsias. “Primeiro, analisa por fora e, depois, abre o corpo. Se ele omite uma lesão de característica recente, comete crime de fraude processual”.
Llanos entende que o laudo está dentro dos padrões legais mas, como as lesões mencionadas pela família não constam no documento, o argumento dos parentes é o suficiente para conseguir uma autorização para exumar o corpo [desenterrar para reavaliar].
Para os familiares, os laudos dos mortos estão parecidos. “Fizeram a mesma coisa com todo mundo […]. Vou esperar o quê? A Justiça? De um governo que simplesmente permite uma chacina?”, questionou.
Última visualização
Com base no documento do IML de Praia Grande, Felipe morreu às 22h52 de 28 de julho. Os familiares disseram ter ouvido que a morte aconteceu 21h46. Apesar dos diferentes horários, o que chamou a atenção foi o fato de a última visualização no WhatsApp ter acontecido às 0h16 de 29 de julho.
“É impossível. Morto não fala. Ele tem que ter passado a senha e, para ter passado, foi vivo, não foi no meio do confronto. Não tem lógica”, disse um familiar, que não teve acesso ao aparelho e demais objetos pessoais.
Print mostra que WhatsApp de Felipe foi acessado e visualizou conversas às 0h16, horas depois de ter sido morto, na Vila Baiana, em Guarujá, SP
Reprodução e Arquivo Pessoal
Nascido em São Paulo, Felipe mudou-se para Guarujá há quatro meses e trabalhava com um carrinho de açaí, vendendo raspadinha na praia. No dia em que foi morto com sete tiros, ele teria saído para comprar comida e cigarro.
Secretaria de Segurança Pública
Por meio de nota, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) disse que as forças de segurança atuam em absoluta observância à legislação vigente. Todos os casos de mortes decorrentes de intervenção policial são investigados pela Deic de Santos, com o apoio do DHPP, e pela Polícia Militar.
O conjunto probatório apurado no curso das investigações, incluindo as imagens das câmeras corporais, tem sido compartilhado com o Ministério Público e o Poder Judiciário.
Já os laudos oficiais, elaborados pelo Instituto Médico Legal (IML), foram executados com rigor técnico, isenção e nos termos da Lei. Em nenhum deles foi registrado sinais de tortura ou qualquer incompatibilidade com os episódios relatados. Os relatórios já foram enviados às autoridades responsáveis pelas investigações.
Operação Escudo
Policiamento em Guarujá (SP) foi reforçado durante ‘Operação Escudo’
Reprodução
O soldado Patrick Bastos Reis foi baleado enquanto fazia um patrulhamento na comunidade da Vila Julia, em Guarujá, em 27 de julho. A morte dele foi confirmada no mesmo dia. Além dele, um outro policial foi baleado na mão esquerda, encaminhado para o Hospital Santo Amaro e liberado.
Após o caso, a Polícia Militar iniciou a Operação Escudo, com o objetivo de capturar os criminosos responsáveis pela ação contra os agentes.
Erickson, também conhecido como ‘Deivinho’, foi capturado na Zona Sul de São Paulo, durante a noite de 30 de julho. Segundo informações da polícia, Erickson tem 28 anos, é solteiro e teria atirado em direção ao soldado da Rota de uma distância de mais de 50 metros.
O irmão de Erickson David da Silva, Kauã, também é suspeito de atirar e matar um PM das Rondas Ostensivas Tobias Aquiar (Rota). Ele foi preso por envolvimento no crime em Guarujá, no mesmo dia em que completou 20 anos. O g1 apurou que Kauã usava as redes sociais para mostrar a ‘rotina’ no tráfico, com armas apontadas para viaturas e funk ‘proibidão’.
As informações foram divulgadas pelo secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite. Segundo ele, Kauã tinha a ‘função’ de ficar posicionado na comunidade Vila Júlia, armado e com um comunicador, pronto para avisar os comparsas sobre a chegada de viaturas policiais ao local.
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