Guarujá

Documentário lançado em 2023 deu pistas do paradeiro de sérvio executado no Brasil: ‘Vivendo uma vida normal’


Em entrevista ao Fantástico, uma jornalista de Montenegro conta qual o papel de Darko Geisler na disputa por poder do crime organizado na região dos Balcãs. Antes de ser assassinado no Brasil, sérvio teve paradeiro revelado por TV europeia
A morte do sérvio Darko Geisler, executado no dia 5 de dezembro em Santos, no litoral paulista, gerou uma investigação internacional e revelou a ligação da vítima com uma série de crime no Leste Europeu. O Fantástico deste domingo explica quais as ligações de Geisler com grandes facções criminosas e como o rastro dele no Brasil foi divulgado em um documentário lançado em 2023.
Essa história começa dez anos antes, em Montenegro, quando o mafioso Andrija Mrdak foi visitar o irmão na cadeia e foi atingido por vários tiros ao descer do carro blindado. O assassino era Geisler, que fugiu em uma moto.
Geisler é apontado como o executor do irmão de um criminoso há 10 anos em Montenegro.
TV Globo/Reprodução
A vida do sérvio chegou ao fim da mesma forma, em 2024, na cidade paulista. Aqui ele se passava por um carpinteiro chamado Dejan Kovac, tinha mulher e filho. Foi executado chegando em casa, na frente dos familiares. O criminoso fugiu sem deixar rastros.
No bolso da Geisler um passaporte da Eslovênia. O verdadeiro dono do documento, no entanto, o perdeu e a foto não batia com o nome. Foi o pontapé inicial que chegou até o nome de Darko Geisler, um fugitivo internacional.
Na mira dos mafiosos
De acordo com Coordenador-Geral de Cooperação Policial Internacional (Interpol), Fábio Mertens, Geisler é o braço direito e segurança de uma das grandes organizações criminosas dos Balcãs.
Especialista no tema, a jornalista Svetlana Dokic contou ao Fantástico que há uma guerra iniciada há 10 anos e que tem como pano de fundo o tráfico internacional de cocaína.
Svetlana Dokic, jornalista especializada em organizações criminosas dos Balcãs.
TV Globo/Reprodução
“Desde quando um carregamento de cocaína se perdeu e houve um racha entre um grupo criminoso, formando duas facções, esses clãs executaram pessoas não apenas em Montenegro e na Sérvia, mas na Espanha, Áustria, Alemanha e Turquia. Há indícios de infiltrados nas forças de segurança e até entre políticos.
Svetlana trabalha há mais de 20 anos como jornalista policial. Ela comanda uma série documental sobre crimes na TV de Montenegro, e um dos episódios trata justamente da morte do mafioso Andrija Mrdak.
“Quando o Geisler matou o Mirdák na porta da prisão, ele atirou na própria perna acidentalmente ao subir na moto onde o cúmplice o aguardava. Deixou DNA na cena do crime, e assim foi identificado pela polícia, porém nunca capturado”, explica.
No episódio que foi ao ar no fim do ano passado, um membro do grupo criminoso chega a dar pistas do paradeiro de Geisler.
“Pelo que eu sei, o Geisler está vivo. Me disseram que está escondido no Brasil, vivendo uma vida normal”, diz o homem.
Em depoimento ao documentário, um homem diz que Geisler estaria viviendo no Brasil.
TV Globo/Reprodução
A jornalista acredita que o clã rival mirou o país após a divulgação da informação.
“Quem encontrou o Geisler foram os criminosos. Isso prova que eles estão um passo gigante à frente dos investigadores montenegrinos. Acredito que a polícia não estava suficientemente determinada a prendê-lo”, diz.
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Agora, a cooperação internacional entre polícias quer encontrar o assassino de Darko Geisler, outro matador profissional, muito provavelmente estrangeiro.
“A polícia de Montenegro tem um grande interesse também na apuração do crime de homicídio, mesmo porque, tratando-se como uma vítima que era investigada e pertence a organizações criminosas que agem naquela localidade, há suspeitas de que outros membros dessa mesma organização criminosa também possam ocupar aqui o solo brasileiro”, afirma o delegado Luiz Ricardo Lara.
Vida dupla no Brasil
Sérvio vivia no Brasil com passaporte falso.
TV Globo/Reprodução
Segundo a polícia, o sérvio era matador de aluguel. Ele estava na difusão da lista vermelha da Interpol, que conta com milhares de procurados pelo mundo todo.
“O que a gente tem de informação até o momento não nos permite afirmar como, quando e por onde ele entrou em território nacional, justamente pelo fato de ele estar utilizando um documento aqui no Brasil que era um passaporte esloveno falsificado, que não tem registro oficial de entrada e nem, evidentemente, de saída aqui dentro do Brasil”, explica Mertens, da Interpol.
A esposa de Geisler, que presenciou o assassinato do marido, disse à polícia que o conheceu em 2016 e que não sabia nada do passado dele. Ela conta que ele teria entrado no Brasil em 2015, morado em um flat nos Jardins, em São Paulo, e se mudado para a Baixada Santista com a ela, já em 2017.
O casal teve um filho, atualmente com três anos. Em 2020, eles compraram um apartamento de R$ 250 mil, no nome dela.
“Ele não tinha nenhum tipo de documento, como RG, CPF, carteira de habilitação ou conta bancária. Ou seja, nada que possibilitasse a sua individualização como sendo estrangeiro residente no Brasil”, conta o delegado.
O sérvio sequer registrou o próprio filho, indicam as investigações.
Perseguição, execução e fuga
Câmeras de segurança mostraram movimentação de homem que matou o sérvio em Santos.
TV Globo/Reprodução
Câmeras de segurança ajudaram a montar a sequência do crime em Santos. Na noite de 5 de dezembro, o assassino aparece monitorando a família em uma praça, seguindo a vítima por uma distância de pouco mais de um quilômetro.
Ele caminha pela calçada, faz uma pausa para amarrar o tênis e, 20 segundos depois, a família passa do outro lado da rua. A perseguição continua. Na imagem seguinte, as bicicletas passam na frente do assassino, que corre atrás.
O trio para em frente ao prédio onde mora, o assassino chega correndo e dispara contra o sérvio. A bicicleta cai, com o filho ainda na cadeirinha. A mãe socorre a criança, que não fica ferida.
O atirador sai correndo e, entre um carro e uma árvore, ele troca de roupa.
Assassino antes e depois da troca de roupas na rua.
TV Globo/Reprodução
O criminoso segue correndo e, então, passa a andar tranquilamente. Procura a faixa de pedestres e atravessa a rua.
Após ser registrado fugindo do local, a partir de um ponto não há mais registros do criminoso. Ele desapareceu após cruzar uma avenida, nove minutos após a execução. Para a polícia, fica claro que ele está estava sozinho e agiu de forma bem diferente das organizações criminosas do Brasil.
“Remonta, sim, às atividades criminosas de clãs, como são chamados no Leste Europeu, que provavelmente buscaram exterminar a vítima que residia no Brasil por motivações anteriores, mesmo porque a nossa vítima era não só membro de uma organização criminosa, como suspeita de ter executado membros de alto escalão de algumas organizações criminosas do Leste Europeu”, diz Lara.
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