Guarujá

Artista do litoral de SP veste a namorada com um polvo em obra contra o racismo exposta na Europa


Arte foi selecionada para exposição coletiva em Portugal. Obra ‘Pegajoso’ (à esquerda), do artista brs2no, está exposta em uma galeria de Portugal
Arquivo Pessoal e Divulgação
Um artista de Santos, no litoral de São Paulo, teve o trabalho selecionado para uma exposição em uma galeria de Portugal, na Europa. Conhecido artisticamente como brs2no, Bruno Andrade de Oliveira, de 28 anos, contou que a fotografia “Pegajoso” busca retratar o racismo e o machismo sofrido por mulheres orientais.
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“Criei o conceito de ‘pegajoso’ para falar sobre a fetichização étnica e o quanto o racismo ‘gruda’ e vai criando camadas na gente. Ainda que eu não saiba o que é ser uma mulher amarela, essas questões também me atravessam de formas diferentes a todo o tempo”, explicou sobre a foto de uma mulher oriental com um polvo grudado no corpo (veja mais abaixo).
A obra tem a companheira do artista como modelo e surgiu justamente como forma de abordar temas importantes para a sociedade.
“Sempre senti o racismo em todo lugar que frequentei, sempre fui consciente em relação à minha etnia e como isso desde cedo teve impacto na minha socialização. Mas foi quando eu comecei a me relacionar com a Hana, minha companheira, musa inspiradora e modelo da foto, que despertei para o racismo que as pessoas amarelas sentem”, afirmou.
De acordo com Bruno, muitas pessoas acreditam que não existe racismo com asiáticos, mas trata-se de algo enraizado. “Quase tanto quanto o racismo com negros. Existem diferenças históricas, mas qualquer olhar atento enxerga que dividimos muitas semelhanças em sociedade. Da mesma forma que o machismo afeta mais o corpo e a mente de mulheres negras, isso também é verdade com as mulheres asiáticas”.
Para ele, uma das culpadas para este cenário é a indústria pornográfica. “Cria e capitaliza uma imagem e um lugar que é drasticamente diferente das mulheres racializadas que eu tive o prazer de conhecer até aqui”, afirmou.
O jovem contou que ele e a esposa viviam em um apartamento de 25 m² na época em que a foto foi feita. Desta forma, o casal precisou levantar a cama para ter um espaço de fundo fotográfico.
“Eu acordei cedo para comprar o polvo, uma amiga fez a maquiagem na Hana e a gente ficou esperando a luz certa iluminar a cena pela única janela que a gente tinha em casa. Depois a gente preparou o polvo na panela de pressão e comeu”, relembrou.
Exposição
Bruno inscreveu a foto para a semana exposição coletiva por meio de um edital e a obra foi selecionada para a galeria Euroart após passar por curadoria.
“É algo único saber que minha arte vai atravessar pessoas de outro continente, com outras vivências e que isso também expande a obra completamente, já que acredito que o público tem papel fundamental na construção dos sentidos de uma obra”.
Apesar de celebrar a visibilidade internacional, Bruno lamentou que não possui a mesma oportunidade no país onde vive.
“Não é a primeira vez que pessoas de fora reparam no que eu estou fazendo, enquanto ainda não consegui participar de uma única exposição coletiva aqui [Brasil]. Isso demonstra a ânsia que o resto do mundo tem em consumir arte do sul-global, que é de um potencial enorme para nós artistas brasileiros, mas também o quanto a burocracia, a falta de acesso e recursos acaba destruindo sonhos dos maiores artistas que eu já conheci”, disse.
O programa de exposições coletivas Euroart busca levar a arte de brasileiros para o mundo. A exposição que conta com o trabalho de brs2no ficará em Portugal até sexta-feira (29). Depois, cinco artistas serão premiados.
O artista
Artista plástico, fotógrafo e formado em Publicidade e Propaganda, Bruno é um artista conceitual multimeios não-binário (não pertencente ao gênero masculino ou feminino) que estuda Arquitetura.
Atualmente, ele gerencia um ateliê de arte em Santos e é sócio de uma marca de roupas de produção sustentável, onde atua como diretor de arte e desenhista de moda. De acordo com ele, o seu trabalho busca romper politicamente as estruturas do capitalismo e questionar as construções sociais como raça e gênero.
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