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‘Não é uma febre, é sim uma realidade’, declara precursor do podcast no Brasil

De acordo com uma pesquisa realizada pelo DataReportal no ano passado, o Brasil é o país que mais consome conteúdo por podcasts no mundo. São cerca de 43% de usuários de internet, com idade entre 16 e 64 anos, que escutam produções toda semana e estima-se que as pessoas do mundo todo passem em média uma hora por dia ouvindo podcasts. Ainda, segundo estimativas da eMarketer, a expectativa é que, até o fim deste ano, 25% da população mundial já tenha aderido ao conteúdo.

Essa bola foi cantada em 2005 pelo empresário Guido Orlando Junior. “Desde o começo eu sempre encarei o podcast como um veículo de comunicação democrático e disruptivo quanto à distribuição e na maneira de consumir conteúdo e adquirir conhecimento. Na verdade, não é uma febre e sim realidade. Isso não vai passar e a tendência é crescer muito nos próximos anos”, explica.

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O jornalista e também publicitário soma mais de 30 anos de atuação em comunicação, sendo 20 deles com a nova dinâmica de conteúdo. “Dediquei e dedico grande parte da minha vida ao áudio e videocast. Eu sempre achei que ele iria se tornar uma “rádio sob demanda”, ou seja, o ouvinte poderia acessar seu conteúdo preferido a qualquer hora e iria – como acontece hoje – se libertar da grade de programação das rádios. Porém, eu não tinha a visão de que ele poderia virar o que se tornou, graças ao YouTube e ao avanço rápido do streaming.

Com a entrada do vídeo no podcast eu brinco dizendo que ele virou milhares de “Jôs Onze e Meia” espalhados por todo o YouTube. Eu não poderia ter previsto isso em 2005, porque não fazia sentido. Não tinha streaming consolidado e o “Jô Onze e Meia” era um programa de entrevistas de muita audiência, era um modelo tradicional de entretenimento em forma de entrevistas, copiado dos EUA, do jornalista John William Carson, o “Johnny Carson”.

O sócio proprietário da Editora VideoPress Produções e Comunicação, responsável pelos renomados Estúdios Vida Moderna, também analisa a ascensão desse tipo de formato no mundo corporativo atual. “O podcast até 2017 era visto não como um veículo de comunicação, mas como uma coisa interessante e difícil de fazer. A partir do momento em que a grande mídia descobriu o potencial do podcast ele mudou de patamar e o público o adotou como um rádio sob demanda, o que na minha opinião ele sempre foi desde quando comecei a publicar podcasts corporativos, isso em 2005”.

Foi a partir de 2017 que as empresas começaram a prestar atenção timidamente no podcast, que foi ganhando terreno e ainda tem muito que crescer. “Na minha opinião isso aconteceu porque as revistas setoriais praticamente sumiram do mercado, as publicações tradicionais encolheram drasticamente e as empresas e executivos ficaram sem um canal de comunicação tradicional para ir para o mercado. Os executivos ficaram sem ter onde colocar sua imagem em artigos nas revistas tradicionais e os cases que antes eram extraídos das revistas e viravam os famosos reprints, que eram a alegria financeira das editoras para serem distribuídos em eventos, acabaram.

Sem ter onde desovar a imagem dos executivos e os cases, o marketing das corporações começou a se interessar pelo podcast a partir do final da década passada, pois ele une o melhor dos mundos da comunicação corporativa: exibe não só a imagem do executivo, mas sua voz, expressões faciais, entonações, postura corporal etc. Além disso, ele consegue convidar prospects para um podcast e, através desse convite, fazer uma aproximação mais descontraída e efetiva, gerando inclusive futuros negócios”, declara.

Uma pesquisa da Hubspot (Social Media Trends 2023) valida que os vídeos curtos são um sucesso, afinal esse é o formato que os profissionais de social media mais investem. Os conteúdos curtos são mencionados por 33% dos profissionais, os podcasts também entram na pesquisa, com 7% de participação, ou seja, o público gosta de conteúdo longo, mas transformar isso em recortes menores e mais rápidos é uma boa forma de gerar engajamento e conteúdo. “Indo mais além, o fato de poder convidar clientes importantes para, em um podcast, contar um case para seu público de interesse e depois de produzido, usar essa conversa em cortes estratégicos durante postagens nada mais são do que os antigos reprints, muito mais baratos e efetivos”.

Apaixonado por tecnologia, Guido Orlando Junior declara que não se arrepende por ter pedido demissão em 2003 de uma editora de revistas de tecnologia e ter se aventurado no mundo moderno. “Sempre passei por desafios em minha vida, já vendi um carro para estudar por um ano na Inglaterra, já fechei uma empresa da família com tudo regularizado, já fali uma produtora na época da TV Mulher porque o formato do programa era parecido com o que vemos hoje na internet e a emissora começou a querer cobrar demais. Pensei fora da caixa e como entrevistava muitos executivos, percebi que havia um nicho de mercado a explorar. Na época não tinha tanta tecnologia, lembro que comprei um aparelho de escuta clandestina para gravar as entrevistas, até que um amigo me ligou dos Estados Unidos e disse: aqui está começando o que você quer fazer aí, se chama podcast, que é a união entre ipod com broadcast. De início eu pensei em gravar o noticiário semanal em CD´s, mas em território americano eles estavam fazendo no formato mp3 e então eu comecei a investir nesse formato. Criei um site, o VoIT – Voice Over IT – e em duas semanas no ar o UOL me chamou para colaborar com eles e fiquei lá até 2011”, relembra.

Depois disso, visionário, o empresário criava pacotes para empresas que atende até hoje por meio de uma estrutura com o que há de mais moderno em estúdios em São Paulo. “Em 2019 eu cheguei na FutureCom, principal feira de telecomunicações da América Latina e disse que estava lá para produzir podcasts. De cara, uma empresa comprou na hora vinte episódios e depois disso não parei mais”, conta.

Em um ano e meio de estúdio são mais de 100 clientes. São empresas que trabalham conteúdo e credibilidade nos podcasts. “Com Podcast não se ganha dinheiro em patrocínio. Você ganha credibilidade e ganha verba para pagar o custo do podcast porque precisa ter essa consciência e ter paciência para construir uma audiência”.

A pedido desta colunista, o especialista separou dicas práticas para que você tenha sucesso ao produzir um podcast. “Em primeiro lugar é preciso saber para que você quer montar um podcast e entender se você conhece o mercado suficiente para produzir conteúdo de qualidade e com procedência. Aí, é preciso pensar se conhece entrevistados, qual periodicidade o podcast terá e claro, treinar a habilidade de levar uma conversa por cerca de 30 minutos, de maneira leve, clara e interessante. Além disso, é preciso separar uma verba financeira e ter uma estratégia comercial definida. Não se deixe influenciar e desanimar pelos podcasts com milhares ou milhões de inscritos e visualizações. É preciso analisar qual seu público-alvo e ter muita dedicação e paciência. No começo sempre parece fácil, mas não é. E você terá que persistir e investir para fazer virar”.

Segundo Guido, o sucesso ou não do projeto depende de vários fatores. “A seleção é constante em qualquer setor da economia. Empresas nascem e morrem todos os dias e com o podcast não é diferente. Esse é um mercado que está consolidado e vai seguir as regras naturais de qualquer negócio, mas nesse caso o que manda é o bom conteúdo e frequência de publicação, ou seja, a famosa periodicidade”.

O que podemos esperar para o futuro próximo? “Um aumento constante de novos Podcasts, principalmente no mercado corporativo e de profissionais liberais querendo atingir seus públicos. Geralmente são B2C, ou seja, empresas querem atingir os consumidores finais 2024 está crescendo rápido nesses dois segmentos, a procura aumentou significativamente de 2023 para cá e acredito que a tendência é que aumente bastante e fique consolidada. E a próxima onda serão os Podcasts B2B, ou seja, os Podcasts de empresa para empresa”, finaliza.

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